sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Os dons espirituais da atualidade como análogos aos dons apostólicos: a afirmação da obra extraordinária do Espírito Santo dentro da teologia cessacionista: Parte II


Vern Sheridan Poythress

VI. CONTEÚDO CIRCUNSTANCIAL RECEBIDO POR MEIO DE PROCESSOS NÃO-DISCURSIVOS
Há muito temos discutido o conteúdo do ensino. Vamos agora considerar o segundo tipo de conteúdo – a saber, o conteúdo circunstancial. Nesta categoria nós temos declarações como as que seguem. Numa igreja americana alguém diz: “eu sinto que nossa igreja irmã em Xangai está em luta espiritual e passando por ataques”. Certa vez, C.H. Spurgeon apontou na direção da galeria da igreja dele e disse “jovem rapaz, as luvas que você tem em seu bolso, você não pagou por elas” [1]. Em uma outra ocasião, Spurgeon disse “há um homem que é sapateiro e que mantém sua sapataria aberta aos domingos; ele a abriu no último Sabbath pela manhã; pagaram-lhe nove pences por um serviço [2] e lucrou quatro pences. Sua alma foi vendida a Satanás por quatro pences”. Uma mulher na Suíça teve uma visão de um auditório em Essex onde Os Guinness estava prestes a palestrar e onde uma garota estrangeira estava prestes a impedir o encontro [3]. Todos são casos de conteúdo circunstancia obtidos por meio de processos não-discursivos.
Indubitavelmente esse tipo de conteúdo causa maiores dificuldades. No entanto, elas são consideravelmente reduzidas se atentarmos ao fato de que a informação obtida não é muito diferente em seu conteúdo daquelas obtidas por meio de canais óbvios. Por exemplo, em princípio a igreja em Xangai podia estar habilitada para fazer chamadas de longa distância para irmãos e irmãs dos Estados Unidos. Spurgeon podia ter obtido a informação (mas não foi o que ocorreu) da pessoa que havia roubado o par de luvas ou daquele que abriu sua loja no domingo. Os Guinness poderia ter efetuado uma chamada de longa distância para aquela mulher da Suíça. O tipo de informação envolvida não é impressionante. O impressionante é que a informação veio por meio de processos não-discursivos. Não houve qualquer chamada de longa distância ou qualquer outra comunicação cientificamente analisável pela qual a informação chegou ao receptor. Tais informações como um processo espiritual operando no nível da crença ordinária, ou concebida no nível dos dons espirituais. Se o cânon está completo, não há caminho pelo qual essa informação pertença ao nível 1 ou nível 2. Ademais, não há nenhuma razão prática pela qual a informação precisa pertencer ao nível 1 ou nível 2. O ponto em especial é que o receptor tenha recebido a informação, não que a informação tenha um status especial. Consequentemente, eu arguiria que a informação deste tipo pertence à mesma ampla categoria daquela informação recebida por um telefonema de longa distância, pelo jornal novo ou pela observação direta. É simplesmente uma informação sobre o mundo, não mais, não menos. Em princípio, não é uma informação que desafie as Escrituras mais do que a informação sobre se escovei ou não meus dentes após o café da manhã [4].
Eu penso que pessoas que têm problemas com processos não-discursivos têm problemas com a obviedade. Nos casos envolvendo processos não-discursivos, não houve nenhuma ligação de longa-distância. Assim, de modo lógico, a pessoa em questão deve ter recebido a informação diretamente de Deus. Consequentemente a informação deve ter sido diretamente inspirada por Deus e deve carregar a completa autoridade divina. Esta última conclusão cria a dificuldade mais dolorosa porque se a conclusão é verdadeira, a informação recebida competiria com a autoridade da Bíblia. Cessacionistas sentem que devem rejeitar completamente esse tipo de processo para proteger a suficiência e exclusividade da autoridade bíblica; Os não-cessacionistas, em contraste, sentem que devem se submeter a tais informações de modo acrítico, contrariando o caráter falível das fontes modernas.
Ambos lados precisam se acalmar. O erro crucial está em confundir o envolvimento de Deus com a falta de envolvimento da criatura humana e pecado humano, e, além disso, confundir o envolvimento de Deus com a plena autoridade divina do resultado. Deus, em certo sentido, está diretamente envolvido no crescimento da grama e do vento que sopra: “Fazes crescer erva para os animais” (Sl 104:14), no entanto o crescimento da erva não é inspirado. Por conseguinte, ainda que as pessoas não estejam conscientes das fontes dos seus pensamentos, suas palavras ou visões, as fontes estão ali em consequência de aspectos de suas personalidades. Lideranças nos círculos carismáticos são bem cônscios de que muitas pessoas podem falar em línguas ou entregar profecias na carne, ou seja, eles sabem que mesmo os processos não-discursivos são psicologicamente motivados. [5]
Sonhos são um bom exemplo.  A maioria dos ocidentais enxergam hoje a maioria dos sonhos basicamente como um produto do inconsciente ou de uma imaginação descontrolada. Presumivelmente houve muitos sonhos mundanos, ordinários nos tempos do Novo Testamento tal como hoje. Contudo alguns sonhos foram revelatórios (Mt 1:20-24). Atos 10.10 sugere que Deus pode se utilizar de uma experiência humana normal, tal como a fome funcionando como um meio pelo qual ele traz um sonho ou visão apropriados.
Analogicamente, nos tempos modernos, nós podemos postular que um sonho pode ser simultaneamente um produto de certas predisposições psicológicas pessoais e um meio usado por Deus para trazer uma atenção pessoal sobre um tipo de conteúdo circunstancial.  Por exemplo, suponha que apenas antes de ir para a cama, Sally e seu marido conversem sobre sua tia Emma que está dirigindo a uma considerável distância para um encontro especial naquela noite. Na alta madrugada então, Sally tem um sonho no qual a tia Emma morre repentinamente em um acidente de carro. Sally então acorda e decide orar pela tia e por aqueles que são próximos. Depois, volta a dormir. No dia seguinte recebe a notícia de que Emma se envolveu em um acidente na mesma noite em que Sally orou. O carro ficou totalmente destruído, mas felizmente tia Emma não ficou ferida. O sonho não é infalível ou não adiciona conteúdo à Bíblia. No entanto, foi uma experiência psicológica falível que Deus usou para trazer Sally à oração em um momento que era crucial.
O crucial exemplo de Lucas e do livro de Apocalipse retorna para nos instruir. Não há intrinsecamente uma espiritualidade superior que pertença aos processos discursivos (Lucas) ou processos não discursivos (Apocalipse). Quando o Espírito Santo produziu o cânon, ambos os processos foram inspirados. No entanto, em outras situações, ambos os processos foram não-inspirados. Eles podem ter sido também influenciados por demônios (2ª Tm 2.24-26; Lc 8.32; At 16.17-18). Ambos podem ser falíveis e ter um caráter confuso, de acordo com a falibilidade geral do ser humano. Uma vez que a inspiração cessou com o encerramento do cânon, fontes modernas são sempre falíveis.
Suponha então aceitarmos que os processos não-discursivos são todos falíveis. Eles não são em princípio uma ameaça à autoridade única da Bíblia, no entanto algumas pessoas ainda podem ter problemas em entender sobre como lidar com eles. Como então validar o conteúdo? Se nós não damos qualquer credencial aos processos não-discursivos, na prática não o estaríamos recebendo de modo não-crítico porque eles não podem ser diretamente checados pelas Escrituras?
Nós temos visto que quando o conteúdo é conteúdo de ensino ou doutrinariamente orientado, os ouvintes podem verificar o conteúdo em comparação com as Escrituras. Mas como um conteúdo circunstancial pode ser verificado? Suponha que alguém reivindique por meio de processos não-discursivos que certo homem não pagou por suas luvas. Devemos crer ou não na reivindicação?
Situações como essas não são tão difíceis como podemos supor. Muitas vezes não importa aquilo em que acreditamos. Nós somos livres para permanecer duvidando, e somos bastante aconselhados a permanecer em dúvida em virtude da falibilidade de todo o processo não-discursivo moderno. Nos casos da vida de Spurgeon, a congregação recebeu uma ilustração de uma lição geral sobre suas necessidades e pecados particulares, ou seja, uma ilustração dirigida por Deus. Se Spurgeon está certo e há um rapaz que roubou as luvas, o rapaz sabe disso e recebe a mensagem de modo muito particular. Mas se Spurgeon está errado (e de fato pode estar em decorrência de sua falibilidade), então ninguém recebe a mensagem de modo particular, mas permanece uma lição geral para toda a congregação. Assim, nós podemos orar por uma situação sem saber com certeza se ela é tal como pensamos ser; podemos orar por um jovem rapaz sabendo que Deus sabe qual a real situação, e, podemos orar por igrejas irmãs em Xangai.
Claro que o perigo de abuso nunca está distante. Spurgeon falou para uma grande congregação, então seria presumivelmente impossível para as pessoas saberem exatamente quem Spurgeon tinha em mente. Ele podia até não saber quem era o indivíduo. Mas se o orador estivesse reivindicando que uma pessoa em específico pecou, o resultado poderia ser uma calúnia e isso é claramente antibíblico (Pv 10:18; Cl 3:8; 1ª Pe 2:1, etc). O orador então necessitaria ser repreendido.
Algumas pessoas talvez sintam certo desconforto sobre essa incerteza. Talvez elas tenham as razões que seguem. Quando nós recebemos uma chamada de longa distância de Xangai, nós sabemos o que está acontecendo lá. Mas quando nós sabemos por processos não-discursivos, não podemos ter certeza de que aquilo está realmente acontecendo. Como podemos responder a isso?
Na atualidade nós estamos acostumados em muitos tipos de situações a responder situações duvidosas. Além do mais, uma chamada de longa distância não é infalível.  Pode haver estática na linha.  A pessoa do outro lado da linha pode estar confusa acerca da situação que está acontecendo em Xangai ou pode estar mentindo sobre a situação; talvez esteja insano; ou talvez a voz que estamos ouvindo seja uma voz digitalmente alterada. Apesar destes problemas de falibilidade, é possível responder propriamente a uma chamada de longa distância.
Considere por um outro ângulo. Se a pessoa do outro lado de uma chamada telefônica tem mostrado ser duvidosa no passado, nós desconfiamos daquilo que ela diz em certo nível. De igual modo, se o processo não-discursivo de alguém não tem sido confiável, nós desconfiamos do que ele diz na proporção da sua confiabilidade. Se nós não temos nenhuma experiência com os processos não-discursivos dessa pessoa, nós desconfiamos mais ou menos na mesma proporção de qualquer estranho aparentemente bem-intencionado. Muito dessa prática de estimativa é muito comum nas relações humanas. Nós não estamos tratando com algo que não tenha algum precedente na experiência humana.
VII. PREDIÇÕES
Há ainda alguns tipos de conteúdo circunstancial que precisa de atenção especial. Um destes é o da área de predição. O que fazer quando alguém prediz o tempo em que Jesus voltará? Então seguramente nós podemos ignorar a predição porque contradiz as Escrituras (Mc 13.32-37; At 1.7). Nós devemos admoestar a pessoa que faz a previsão, usando nossas bases de advertências bíblicas contra a definição de datas para o retorno de Cristo.
Peguemos agora um outro exemplo. E se alguém disser que a Califórnia será submersa no mar em uma data tal? Se vivemos na Califórnia, deveríamos preparar nossas malas e ir embora? A primeira regra em tais situações deve ser, como sempre, lembrar que toda predição humana é falível. O que devemos fazer com a predição de possibilidades ou previsões econômicas? Nós devemos prestar alguma atenção nelas, mas nós sabemos que elas frequentemente erram ou erram em parte e acertam em parte.
Algumas pessoas talvez objetem que as predições e predições econômicas não são um paralelo real porque eles são discursivos ao invés de não-discursivos. Certamente as pessoas que fazem previsões o fazem por inferência, mas as pessoas que julgam a credibilidade da predição quase nunca conhecem os detalhes da meteorologia moderna ou de teorias econômicas, nem conhecem os detalhes dos dados sobre os quais as teorias operam a fim de produzir uma previsão específica. Na prática atual, nós julgamos a credibilidade por meios humanos comuns. Aquele tipo de previsão se provou confiável no passado? A pessoa tem se mostrado uma pessoa confiável nessa área? Essa previsão é o tipo de coisa provável que Deus faria?
Nossa conclusão geral permanece a mesma. Indubitavelmente o Espírito Santo pode trabalhar por meio de processos não-discursivos para produzir predições humanas. Ele também pode trabalhar por meio de processos discursivos para produzir predições humanas. Um não é intrinsecamente mais espiritual que o outro e nenhum é intrinsecamente mais falível que o outro. Nenhum tipo de predição é uma palavra divina extra canônica que demande uma crença submissa, mas é simplesmente uma informação putativa sobre circunstâncias futuras, para ser avaliada como nós avaliaríamos qualquer outra predição.
Uma vez que entendemos que predições baseadas em processos não-discursivos não são uma categoria especial divina e são tão falíveis como as predições baseadas em processos discursivos, nós estamos prontos para a prática da sanidade. Assim, não podemos rejeitar totalmente nem aceitar de forma crédula essas predições.
Notas:
[1]  E. W. Bacon , Spurgeon: Heir of the Puritans. Grand Rapids: Eerdmans, 1968, p. 156.
[2]  Ibid
[3]  O. Guinness, The Dust of Death. Downers Grove: InterVarsity, 1973, p. 299.
[4] Juntamente com muitos outros, Robertson está devidamente muito preocupado com quaisquer palavrasextra afirmando ser “uma palavra vinda do Senhor”, ou afirmando especificar “sua vontade para a vida deles” (Final Word 88–95, esp. p. 89). Ele realça quão instáveis, confusas, opressoras e circunstanciais podem se tornar tais reivindicações. Mas a minha distinção entre conteúdo de ensino e conteúdo circunstancial aborda o problema. Conteúdo de ensino ou reitera as Escrituras ou é inválido) (assim não adiciona à Escritura). Conteúdo circunstancial propriamente compreendido, não é de todo “uma palavra vinda do Senhor”, no sentido de ser uma instrução sobre sua vontade, mas é simplesmente informação circunstancial. Se eu anuncio que eu escovei meus dentes não estou assim proclamando uma “palavra vinda do Senhor” expressando sua vontade (preceptiva).
[5] Veja, por exemplo, C. Brumback, What Meaneth This? (Springfield: Gospel Publishing House, 1947) 259; K. McDonnell, Charismatic Renewal and the Churches. New York: Seabury, 1976, pp. 145–146.
Título original: Modern Spiritual Gifts as Analogous to Apostolic Gifts: Affirming Extraordinary Works of the Spirit Within Cessationist Theology.
Referência:
http://frame-poythress.org/modern-spiritual-gifts-as-analogous-to-apostolic-gifts-affirming-extraordinary-works-of-the-spirit-within-cessationist-theology/
Tradução: Renan Moreira (Versão em português disponibilizada em: http://teologiacarismatica.com.br/).

Os dons espirituais da atualidade como análogos aos dons apostólicos: a afirmação da obra extraordinária do Espírito Santo dentro da teologia cessacionista: Parte I

Vern Sheridan Poythress
Eu sustento que os modernos dons espirituais são análogos, mas não idênticos, aos dons divinamente autoritativos exercidos pelos apóstolos. Uma vez que inexiste uma identificação estritiva, o ensino apostólico e o cânon bíblico têm uma autoridade divina absolutamente exclusiva. Por outro lado, uma vez que há analogia, os dons espirituais em sua moderna manifestação ainda são genuínos e úteis para a igreja. Portanto há um meio termo entre a aprovação e a rejeição dos modernos dons carismáticos.
CRISTOCENTRICIDADE DOS DONS
Para desenvolver este ponto de vista precisamos fazer uma série de distinções cruciais. Em primeiro lugar precisamos de um panorama bíblico acerca do pensamento sobre os dons do Espírito Santo.
O próprio Novo Testamento nos fornece recursos para uma teologia dos dons espirituais. Uma passagem chave é encontrada em Efésios 4:7-11. Jesus Cristo é o cabeça da Igreja e o distribuidor de todos os dons do Espírito (v. 11). Ele distribui dons da plenitude que há nEle, porque Ele triunfou (v. 8) e preenche todas as coisas (v. 10). Atos 2:33 suplementa esta imagem pelos dizeres  de que Cristo “recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo” como um prelúdio do derramamento do Espírito na Igreja. Da plenitude do Espírito de Cristo nós recebemos a medida “como Cristo a repartiu” (Ef 4:7).
Essas reflexões, naturalmente nos levam à conclusão de que nosso ministério no Espírito é análogo, bem como subordinado, ao ministério de Cristo. Por exemplo, Cristo é o grande profeta (At 3:22-26). Por meio do derramar do Espírito em Pentecostes nos tornamos profetas subordinados (2:17-18). Cristo é o Pastor chefe (1ª Pe 5:4), o governante da Igreja.  Por meio do Espírito, ele indicou pastores subordinados (5:1-3; At 20:28) e concedeu dons para governar e administrar o rebanho (1ª Co 12:28; Ef 4:11 [“pastores”]). Cristo veio para servir e dar sua vida como resgate de muitos (Mt 20:28). Ele também concedeu dons de serviço (Rm 12:7-8) e nos chamou para darmos “nossas vidas em favor de nossos amigos” (1ª Jo 3:16).
A obra de Cristo por nós pode ser convenientemente classificada sob a tradicional classificação tridimensional: profeta, rei e sacerdote [1]. Cristo nos fala (profeta), Ele governa sobre nós (rei) e Ele dá sua vida em serviço por nós (sacerdote). Todas as três funções são exercidas concomitantemente em Hebreus 1:1-3. Quando estamos unidos com Cristo, somos transformados em sua imagem e semelhança (2ª Co 2:3-18; Rm 8:29; Ef 4:24). Nós nos tornamos profetas quando falamos sua Palavra para outros (Cl 3:16). Tornamos-nos reis quando exercitamos autoridade em Seu nome sobre todas as áreas pelas quais somos responsáveis (Ef 2:6; 6:4). E nos tornamos sacerdotes quando servimos aos outros (1ª Jo 3:16).
As relevantes passagens escriturísticas nos mostram que estas coisas são a verdade daqueles que creem em Cristo. Contudo, nem todos são igualmente dotados em todas as áreas (Ef 4:7).  Onde os dons da fala são fortes, pessoas  se tornam reconhecidos professores (4:11). Onde dons de governo são fortes, pessoas são reconhecidas como presbíteros ou pastores (1ª Pe 5:1-4). Onde os dons de serviço são fortes, pessoas são reconhecidas como servas ou doadoras de misericórdia. Alguns têm sugerido que talvez pudéssemos correlacionar este serviço, de modo particular, com o ministério do diaconato (que é apoiado pelo fato de que a palavra diakonia significa “serviço”)
As três categorias de dons proféticos, de governo e de sacerdócio não estão perfeitamente separadas umas das outras. Tanto na vida de Cristo quanto na vida do seu povo há combinações típicas. Por exemplo, pastorear envolve a alimentação das ovelhas por meio da palavra de Cristo (uma função profética) e a liderança e proteção destas (uma função de reinado). As fronteiras entre essas áreas são um tanto confusa, mas ainda assim podemos reconhecer aqui focos ou ênfases absolutamente distintas.
Todos os dons mencionados em Romanos 12, 1ª Coríntios 12 e Efésios 4 podem ser classificados grosseiramentena categoria de profético, reinado ou sacerdotal. Por exemplo, dons de conhecimento e sabedoria são proféticos, enquanto os dons de administração, operação de milagres e curas são dons de reinado.  Mas alguns dons podem ser facilmente classificados de um outro modo. Por exemplo, o dom de curar pode ser visto como um domsacerdotal, uma vez que é um exercício de misericórdia em direção a quem foi curado. Ultimamente, as funções proféticas, de reinado, e sacerdotais, podem ser expandidas para perspectivas de toda a vida do povo de Deus. Então não deveríamos nos conturbar diante da aparente sobreposição. Ainda assim essa classificação é bem útil para nos lembrar de nossa relação com a obra de Cristo  e relembrar que nenhuma lista dos dons do Novo Testamento intentou ser exaustiva.
UMA PIRÂMIDE DOS DONS
Porque os dons têm variadas funções e intensidades de manifestação, o NT reconhece níveis de funções para os dons proféticos, de reino e sacerdotais. Quais são eles?

Primeiro e mais importante, há uma superdotação messiânica (nível 1). Cristo sozinho tem a plenitude do Espírito para equipá-lo para as finalidades de profeta, rei e sacerdote, de modo definitivo.
Em segundo lugar, há superdotações apostólicas ou fundacionais (nível 2). Cristo aponta os apóstolos como testemunhas (Atos 1:21-22). Na base do que eles viram e ouviram diretamente, bem como com base na obra de inspiração do Espírito Santo, eles puderam testificar de maneira autoritativa para todas as eras acerca daquilo que Cristo realizou. Em seu caráter de testemunhas verbais, eles têm um papel profético não repetível. Os apóstolos estão intimamente associados aos “homens apostólicos” como Marcos, Lucas e Judas que produziram o cânon do NT.
De modo similar, os apóstolos tomaram decisões fundacionais concernentes à ordem ou pastoreio da Igreja do Novo Testamento. Eles fizeram isso em meio às primeiras crises (Atos 6; 8; 10-11; 15;20). Assim eles tiveram um papel de governo que não é repetível. Os apóstolos apontaram os primeiros diáconos e estabeleceram o ministério do serviço e de misericórdia (6:1-7). Em todos esses aspectos, o papel apostólico não é repetível.
Em terceiro lugar, nós temos o nível de dons proeminentes, e que são dons repetíveis (nível 3). Pessoas podem ser oficialmente reconhecidas pela Igreja quando manifestam intensos dons de ensino, governo e de misericórdia. Tradicionalmente a eclesiologia Reformada denomina esse nível de “ofícios especiais”. Inclui os mestres, presbíteros e diáconos na Igreja.
Por fim, nós temos o nível do envolvimento de todo aquele que crê (nível 4). Como a Escritura mostra, todo crente unido com Cristo é feito um profeta, um rei e um sacerdote, em um sentido amplo.
A distinção entre dons com plena autoridade e dons subordinados (não inspirados) está clara agora. Jesus Cristo é Deus (Jo 1:1; 20:28) e Senhor da Igreja (Ef 5:24). Sua obra tem total autoridade divina. Os apóstolos e homens apostólicos foram comissionados por Cristo para serem testemunhas de sua autoridade. Consequentemente, suas palavras e ações oficiais têm divina autoridade (ver 1ª Co 14:37; 1ª Ts 2:13). Em particular, as palavras apostólicas no exercício de seu ofícios são inspiradas no sentido técnico. Palavras inspiradas são palavras ditas pelo próprio Deus, ou seja, palavra sopradas por Deus (2ª Tm 3:16) e consequentemente elas carregam autoridade divina sem quaisquer ressalvas.
O Espírito Santo também trabalha por um caminho subsidiário dando dons de ensino e comunicando dons aos pastores, mestres e cristãos comuns (Ef 4:1; Cl 4:6). As palavras dadas por essas pessoas, portanto, não são inspiradas, isto é, essas falas não são identicamente ditas por Deus de tal modo que carregue uma divina autoridade e perfeição sem qualquer ressalva.
Todavia, esses discursos podem ser inspirados no sentido popular da palavra. Nós reconhecemos que o Espírito Santo está presente. Agradecemos a Deus pelos dons que são exercidos e sabemos que quando adequadamente exercidos, eles vem do Poder do Espírito Santo. Contudo os resultados são sempre falíveis e devem ser verificados pelo padrão da Bíblia. A necessidade de testes das obras está implícito na própria finalidade da revelação em Cristo (Hb 1:1-3), à característica fundacional do ensinamento dos apóstolos (Ef 2:20) e o fato de que o cânon das Escrituras está completo. Tratam-se dos melhores representantes daquilo que é aceito como ponto de vista dos carismáticos e dos não-carismáticos [3].
CONSCIÊNCIA DAS BASES PARA PALAVRAS E AÇÃO
Nós também podemos esclarecer o funcionamento dos dons do Espírito Santo de muitas outras maneiras que quebrem as classificações que já foram estabelecidas. Por exemplo, podemos distinguir entre dons  exercidos em direção a Deus, em direção a outros cristãos e em direção ao mundo (fora da comunidade cristã) [4]. Para meus propósitos, é conveniente introduzir uma distinção que foque na consciência das pessoas de uma base para suas ideias ou ações.
Em primeiro lugar, às vezes as pessoas podem, conscientemente, derivar suas idéias para suas ações de uma passagem particular da Bíblia. Por exemplo, um professor pregando um sermão expositivo conscientemente baseia o seu sermão em uma passagem particular da Bíblia. Um ancião aconselhando uma pessoa jovem tentado à embriaguez, conscientemente dará seu conselho com base em passagens que advertem contra a embriaguez. Um diácono consolando alguém que passou por uma tragédia pessoal, terá em mente de maneira muito clara, o texto de Romanos 12:15. Permita-me chamar esse tipo de exercício de dom de um processo discursivo do dom. As condutas são inferidas de uma ou mais passagens da Bíblia.
Em segundo lugar, às vezes pessoas podem atuar com base em palpites, sensações ou intuições. Eles sentem que deveriam dizer algo de modo particular.  Eles talvez vejam uma situação e reajam de modo espontâneo.  Ou talvez eles tenham uma visão e audição especiais. No entanto, nestes casos eles não têm consciência de uma passagem particular da Bíblia ou um conjunto de passagem que forme a base de sua experiência. A experiência deles jorra de um impulso pessoal que não pode ser analisado de forma mais profundamente objetiva. Chamemos tais instâncias de processos não-discursivos.
Em terceiro lugar, pessoas podem atuar com base em uma consciência parcial das bases para ação. Por exemplo, eles comparam sua própria situação com algum modelo situacional da Bíblia. Intuitivamente sentem que aquela situação é paralela à situação bíblica, mas sem estarem conscientes de todos os fatores relevantes para julgar a natureza da comparação. Tais processos são parcialmente discursivos. Nós podemos categorizá-los como um mix de processos ou processo de discernimento criativo. Muitas pessoas em diversas situações têm se envolvido neste terceiro tipo de processo que é o mais comum. Contudo, por questões de simplicidade, nós focaremos de maneira abrangente em processos de mais de um lado: nomeado, discursivo e não-discursivo.
Todos os três rótulos acima são intencionados para descrever, não avaliar, ou seja, servem para apontar de forma descritiva aquilo que várias pessoas fazem, sem contudo aprovar ou reprovar tais práticas.
Nós podemos dar exemplos do NT de todas os três tipos de processos. A maior parte das pregações apostólicas envolveram processos de discurso. “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele [Paulo] à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus, e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde. E alguns criam no que se dizia; mas outros não criam” (:At 28:23-24). Paulo baseou-se na Lei de Moisés e nos Profetas, o que mostra um processo discursivo. Similarmente, os sermões apostólicos em Atos apelaram para textos específicos do Antigo Testamento e se juntou argumentos a eles.
Neste sentido, os apóstolos se esforçaram para persuadir seus ouvintes. Pessoas criam neles não meramente porque eles reivindicavam ter autoridade divina, mas também porque pessoas “examinaram as Escrituras todos os dias para ver se o que Paulo dizia era verdade” (At 17:11)
Em segundo lugar, as visões em Apocalipse e outros lugares ilustram um processo não-discursivo. João teve visões, ouviu vozes e registrou aquilo que ele viu e ouviu (Ap 22:8).
Por fim, uma possível instância de processos mixados, ou discernimento-criativo, é encontrado em At 15. Os apóstolos e presbíteros enfrentaram criativamente um novo problema de controvérsia por meio dos ensinos explícitos das Escrituras (At 15:16-18) e parcialmente discernindo uma analogia entre a questão geral e o incidente crucial com Pedro (15:7-11).
As fronteiras entre estes três tipos de processos são obviamente fluidas. A consciência da base para uma ação é uma questão de grau. Uns podem estar mais ou menos conscientes de uns poucos ou muitos dos elementos que contribuem para uma ação.
No caso dos exemplos apostólicos, a relevância discursiva e não-discursiva dos processos são inspirados e divinamente autoritativos. Por outro lado, em outros casos os processos não são inspirados. De fato, eles podematé mesmo ser demoníacos. Demônios usaram processos discursivos em Mt 4:6; 2ª Tm 2:25-26 e processos não-discursivos em Lc 4:34; Ez 13:7; 12:24. Ainda em outros casos, os processos discursivos e não-discursivos operam no curso normal da experiência humana. Por exemplo, processos discursivos funcionaram no argumento de Abigail em 1ª Sm 25:28-31. Processos não-discursivos dominam quando Davi se entrega à aflição (2ª Sm 19:4) até que Joabe o chama para cumprir seus deveres (19:5-8). Em geral não há razões para crer que processos discursivos ou não-discursivos são inatamente superiores. Ambos podem ser inspirados, no caso dos exemplos apostólicos, mas ambos podem ser não-inspirados também.
Como podemos ajustar o cristianismo moderno a este quadro?  Alguns apontamentos sugerem que deveríamos pensar nos dons do Espírito Santo por analogia com os dons exercidos pelos apóstolos [5]. Consequentemente, em princípio, há uma sala para os dons que funcionam com processos discursivos, não-discursivos e processos mixados. Exemplos modernos confirmam essa inferência. Algumas pessoas são muito boas construindo argumentos explícitos à partir da Bíblia. Esses dons usam processos discursivos. Outros, por meio de longos anos de estudo e digestão da Bíblia, e por meio da obra do Espírito Santo que trabalha o conhecimento da verdade no coração deles, sabem o que é certo – mas sem estar habilitado no momento para citar um verso particular que justifique sua conclusão. Os dons deles envolve um processo não-discursivo. Outros, claro, podem tipicamente estar conscientes de alguma fonte não-biblica para sua ação.
Essa diversidade de processos abraça, em particular, a área dos dons verbais de conhecimento e fala – que são proféticos, se opondo aos dons de reinado e os dons de sacerdócio. Algumas pessoas sabem e falam primariamente com base em razões explícitas extraídas de passagens da Bíblia. Outros sabem e falam com base em seus senso intuitivo aquilo que está de acordo com o evangelho.
Vamos considerar alguns exemplos. No nível 2, a pregação apostólica envolve predominantemente processos discursivos. Lucas escreveu o Evangelho que leva seu nome usando processos discursivos. Apocalipse nos dá um exemplo de processos não-discursivos.[6]
O que ocorre nos tempos modernos no nível 3 e 4? Processos discursivos incluem a moderna pregação, o estudo bíblico informal e o ensino. Processos não-discursivos inclui instâncias onde ideias bíblicas ou versos vêm espontaneamente à mente, mas sem que o recebedor saiba de onde e como vieram. Às vezes ocorrem  situações impressionantes. Em um sonho ou uma visão, uma pessoa vê uma mulher em um simples vestido branco. Ela está falando em uma área lamacenta. Um pouco de lama respinga no seu vestido. Ela vem até o portão de um palácio e começa a chorar de vergonha. Um homem vem até ela e lhe dá um glorioso vestido brilhante e então ela entra no palácio com alegria. Ou então, um homem tem um sonho no qual um anjo está escrevendo em um livro. Na parte superior do livro tem o nome do próprio homem. Abaixo de seu nome está uma lista com todas as coisas más que ele já fez e todos os pensamentos que teve.  Um homem aparece com um rosto brilhante e as palmas das mãos gotejando sangue.  Esse homem estende as mãos sobre o livro. Uma voz fala para o anjo ler o que está naquela página, mas o anjo responde “Eu não posso ler, porque está coberto com sangue”.
É a genuína pregação apostólica análoga à moderna pregação? Certamente a pregação apostólica é inspirada e única. A pregação moderna não adiciona nada à pregação apostólica, mas é derivada desta.  Consequentemente pode ser que hesitemos em chamá-las de análogas. No entanto,  de algum modo,  inequivocamente, elas são sim análogas. Pregadores e comentaristas têm sempre estado dispostos a extrair lições dos exemplos dos apóstolos e até mesmo de Jesus Cristo, muito embora estes sejam únicos.
De modo similar, nós podemos questionar se Apocalipse é genuinamente análogo às modernas visões ou sonhos. A resposta  é similar àquela que podemos pensar no que concerne à pregação. Apocalipse é inspirado e único. As modernas impressões ou visões, para serem válidas, não devem adicionar à Bíblia, mas ser completamente derivadas desta. Este caráter derivativo é, de fato, evidente nas duas situações acima, na história da roupa enlameada e do livro manchado. Ambos contém ensinamentos bíblicos sobre perdão e justiça em Cristo e ambos usam temas imaginários derivados das Escrituras. O primeiro é mais geral, enquanto o segundo aplica a verdade da justificação para uma pessoa em específico. O segundo vai além da Bíblia apenas na aplicação particular e consequentemente todos podem reconhecer a legitimidade dessa mensagem “O que as pessoas chamam de ‘visão’ atualmente pode estar sendo um mover do Espírito Santo para aplicar a verdade das Escrituras em sua vida”[7]
De fato, em contextos de um sermão estamos confortáveis com o uso de textos por analogia. A visão de Isaías 6, única em seu conteúdo, se torna base para lições sobre o chamado de Ministros da Palavra. O sermão de Pedro em Atos 2 se torna um modelo para sermões modernos. 1ª Co 12-14 se torna uma fonte de princípios para o exercício dos modernos dons espirituais (até para aqueles que pensam que a maioria dos dons mencionados em 1ª Co já cessaram).
Pessoas às vezes tem se preocupado sobre outras distinções. Eles podem dizer, por exemplo, que a pregação apostólica e a Revelação são completamente diferentes porque envolve um novo conteúdo, uma nova revelação. Em contraste, sermões modernos e visões baseadas na Bíblia e intuições contém uma repetição de uma velha verdade. Mas a diferença aqui, embora reais, são sutis e facilmente exageradas. O ensino apostólico é, de modo notável, baseado no ensino do Antigo Testamento; os eventos da vida de Cristo os ensinamento de Jesus durante o seu tempo na terra (incluindo Lucas 24:25-27,44-49). Assim seus ensinamentos estão longe de ser absolutamente novos, ainda que possam ter sido totalmente novas para aqueles que a ouviram pela primeira vez. O livro de Apocalipse, entrelaça uma notável quantidade de materiais temáticos de Daniel, Ezequiel, Zacarias e outras fontes bíblicas. Em Lucas e Atos, pelo registro de eventos anteriores, nada fundamentalmente novo foi acrescido para além dos eventos registrados. Além disso, a autoridade divina não tem qualquer relação com o fato de algo ser velho ou novo. Deuteronômio é tão autoritativo quando repete uma revelação anterior quanto quando traz algo novo.[8]
Na moderna situação, pregação, visões e sonhos, são velhos em algum sentido, mas novos em um outro: Eles podem comunicar ideias que são novas para aqueles que as receberam. Além disso, há sempre novas aplicações para novas pessoas e novas circunstâncias (como acontece com o nome do homem no livro manchado de sangue).
Então onde está a diferença decisiva? Todos os processos modernos são completamente derivativos com respeito à autoridade. Pregação moderna possui autoridade apenas enquanto reitera a mensagem das Escrituras. O mesmo para as modernas intuições, visões, sonhos e todos os outros processos não-discursivos.
Com este quadro, nós devemos considerar seriamente acerca da suficiência da Bíblia e a falibilidade dos processos modernos. Esse princípio é aplicável tanto aos processos discursivos quanto aos processos não-discursivos. No caso de processos discursivos, um pregador pode pregar uma doutrina ou uma heresia. Uma intuição ou um sonho (quando interpretado) pode ser tanto verdadeiro quanto falso. Em um contexto moderno, nem os processos discursivos ou os não-discursivos podem adicionar algo mais além da Bíblia.
FOCOS DINSTINTIVOS PARA O CONTEÚDO
Nós precisamos traçar uma distinção final em relação ao conteúdo, invés do processo. Até agora temos falado sobre o processo pelo qual as pessoas vêm a dizer algo. Mas devemos nos atentar para o conteúdo daquilo que é dito. Este conteúdo pode tentar reexpressar o conteúdo das Escrituras, ou mesmo dizer algo acerca das circunstâncias que nos rodeiam, ou pode ser ainda uma combinação de ambas.
  1. Pessoas podem falar com foco em um conteúdo didático. Eles nos dizem o que pensam que a Bíblia nos ensina ou o que pensam que Deus nos comanda. Permita-nos chamar o conteúdo de tais conteúdos de ensino discursivo.
  2. Pessoas podem falar com foco em circunstâncias. Eles nos falam o que está acontecendo em torno deles. Ou eles nos falam o que aconteceu no passado ou (se eles predizem algo) o que acontecerá no futuro. Permita-nos chamar isso de ensino de conteúdo circunstancial.
  3. Pessoas podem falar com um conteúdo que objetiva combinar tanto o ensino bíblico quanto a informação circunstancial. Pessoas nos dizem como eles pensam que a Bíblia pode ser aplicada à situação atual. Permita-nos chamar isso de ensino de conteúdo aplicado.
Com o Novo Testamento, no entanto, Jesus e os apóstolos ensinam a palavra de Deus. Assim o conteúdo ensinado, se focado, fala de Deus, ou da história, ou das circunstâncias ou de aplicação. Então, onde é que entra o conteúdo circunstancial? Ele entra quando tentamos aplicar a Bíblia em nossas próprias circunstâncias modernas. O NT nos ordena aplicar a palavra em discernimento às nossas próprias vidas, onde continuamente confrontamos novas circunstâncias e novos desafios (Ef 5:16-17; Rm 12:1-2). Para realizar essa aplicação, devemos inevitavelmente lidar com a aplicação circunstancial e de conteúdo.
Nós encontramos esse tipo de coisa ilustradas muitas vezes na Bíblia, em casos onde a narrativa histórica envolve pessoas não-inspiradas ou ações sem o explícito endosso divino. Considere primeiramente aquilo que está em 2ª Cr 25:3-4 “Sucedeu que, sendo-lhe o reino já confirmado, matou a seus servos que mataram o rei seu pai; Porém não matou os filhos deles; mas fez segundo está escrito na lei, no livro de Moisés, como o Senhor ordenou, dizendo: Não morrerão os pais pelos filhos, nem os filhos pelos pais; mas cada um morrerá pelo seu pecado”. Nas ações descritas, nós encontramos os três tipos de conteúdo. Considere primeiro o princípio no verso 4 “Não morrerão os pais pelos filhos, nem os filhos pelos pais; mas cada um morrerá pelo seu pecado”. Esse princípio cita Dt 24:16. E obviamente um caso de ensino de conteúdo. Amazias pode ter ouvido ou relembrado tais ensinamentos de conteúdo antes de tomar sua decisão.
Em segundo lugar, o v. 3, implica que Amazias tinha que descobrir os fatos sobre o assassinato de seu pai Joás. Ele ou seus oficiais tinham que estar bem certos sobre as causas da morte de Joás para que pudessem seguir os deveres do processo legal (ver Dt 19:15-21). Esta averiguação dos fatos envolvidos é de conteúdo circunstancial. No fim, Amazias encontrou a verdade sobre o assunto, mas seu conhecimento da verdade ou suas declarações da verdade não foram autoritativamente divinas. Foi simplesmente um conhecimento ordinário.
Finalmente, a execução de assassinatos envolve aplicação de conteúdo.  A execução de Amazias combinou o ensino de conteúdo de Dt 24:16 e das penalidades para o assassinato (Gn 9:6) e um conteúdo circunstancial sobre quem foi o culpado nesse caso em particular.
A totalidade da questão em 2ª Cr 25:3-4 é inspirada e, portanto, um exemplo de ensino de conteúdo. Mas os eventos anteriores e a troca de informações entre os oficiais de Amazias não foram inspirados.
Nós podemos encontrar um grande número de exemplos similares com narrativas históricas na Bíblia. Por exemplo, 1ª Rs 1:43-48 é um registro inspirado de um relato não-inspirado da coroação de Salomão. A fala de Jônatas como distinta do registro inspirado (1:43-48), envolveu conteúdo circunstancial.  Esse relatório serviu de base para os atos aplicados de Adonias e seus convidados (1:49-51). Semelhantemente, Juízes 20:29-32 parece um caso de conteúdo de aplicação. Deus deu ordenanças aos israelitas para que eles fossem à luta e lhes prometeu vitória (20:28).  Contudo, parece que os determinantes que compunham os elementos da emboscada não surgiram de uma palavra divina explícita. Em vez disso, os comandantes levaram em conta o conhecimento circunstancial sobre estratégia militar e sobre o que os benjamitas provavelmente estariam esperando.
A  Bíblia é o fundamento para exercitar o bom discernimento sobre nossas circunstâncias. O ensino da Bíblia é assim fundamental na obra do Espírito Santo de ensino hoje. Mas há razões para crer que o Espírito Santo, como Criador e Redentor, está também envolvido nos aspectos mundanos de nosso aprendizado sobre nós mesmos e nossas circunstâncias (Jo 32:8; Sl 94:10; Pv 1:2-7). De um ponto de vista mais amplo, foi fundamental o processo pelo qual Amazias chegou à verdade sobre o homicídio de seu pai. O Espírito deu a Jônatas e aos comandantes militares o conhecimento que eles tinham. Esse conhecimento que provém do Senhor inclui a sabedoria e discernimento acerca da vida cotidiana que o resto do livro de Provérbios promove. Conhecimento cotidiano, bem como o ensino explícito da Bíblia, provêm do Senhor.
As circunstâncias atuais não possuem qualquer autoridade especial. A Bíblia, em contraste, possui divina autoridade. Consequentemente, entre a autoridade das circunstâncias atuais e a autoridade das declarações sobre as circunstâncias dos tempos bíblicos há um profundo abismo. Todavia, em um outro sentido há uma relação muito óbvia. Pessoas nos tempos bíblicos foram pessoas com problemas, lutas e circunstâncias como as nossas. Em certo sentido, então, a aplicação dos princípios gerais da Bíblia são aplicáveis às nossas próprias circunstâncias paralelas. Em todos os casos, o Senhor está envolvido em nosso ensino. Ele nos dá o conhecimento dos princípios bíblicos e conhecimento de circunstâncias particulares para as quais devemos responder.
A QUESTÃO DOS DONS CARISMÁTICOS MODERNOS
Agora nós podemos integrar os dons carismáticos em nosso quadro. Tanto em círculos carismáticos quanto não-carismáticos, vários tipos de dons funcionam por meio de vários processos. É desnecessário tomar notas de todos eles. Os tipos de dons mais controvertidos precisam de nossa atenção – em particular, os dons verbais que os carismáticos classificam como casos de palavra de conhecimento, palavra de sabedoria, profecia, discernimento de espíritos, línguas e interpretação de línguas.
O movimento carismático crê que os dons de profecia, discernimento de espíritos e línguas permanecem na Igreja hoje, enquanto os outros grupos sustentam que cessaram com o ministério do apostolado e com a cessação da revelação especial [9]. Eu sustento que os dons carismáticos modernos são análogos aos dons apostólicos inspirados. Consequentemente, pode ser ou não apropriado chamá-los usando os mesmos termos usados no NT.
Em termos de nossa anterior classificação, todos os  dons controversos são processos não-discursivos. Eles são controvertidos porque suas bases são mais obscuras e mais privadas – isto é, a base é não-discursiva ou intuitiva.
Em contrate, processos discursivos não são controvertidos porque eles apelam para a Bíblia. Claro que processos discursivos são falíveis. Doutrinariamente os pregadores podem soar a verdade das Escrituras. Mas pregadores heréticos também podem tentar espalhar suas heresias. E hereges podem ser o que há de mais perigoso se conseguirem dar argumentos plausíveis que apelem às Escrituras para apoiar seus pontos de vista. Consequentemente, processos discursivos também devem ser averiguados à luz das Escrituras como padrão final. Mas qualquer círculo crente na Bíblia está confortável com tais processos, em princípio por que eles reconhecem a necessidade de exposição da Bíblia.
Processos não-discursivos é que são o problema. Alguns carismáticos talvez pensem que pelo fato de a base ser mais pessoal, mais privada, mais intuitiva, é também mais diretamente obra do Espírito Santo e consequentemente menos sujeita ao erro que outros processos. Mas nós já observamos que tais pensamentos militam claramente em erro. O evangelho de Lucas não é menos inspirado que Apocalipse. Ademais, mesmo os eventos mais maravilhosos podem não passar de falsificação (2ª Ts 2:9),
Assim, de acordo com nossa teologia geral dos dons espirituais, dons discursivos e não-discursivos estão um ao lado do outro, com nenhuma superioridade particular. Como todos os dons, os dons discursivos também devem ser checados em sua conformidade com as Escrituras (1ª Co 14:37-38).
Mas estes dons não-discursivos deveriam mesmo ser chamados de dons do Espírito Santo? Nós já observamos em Sl 94:10; Jo 32:8; Pv 2:6 que o Espírito Santo é o criador e o mantenedor da vida humana, dando todo o conhecimento que ela tem. Então, nesse sentido, são dons.  No entanto, ao atribuir o rótulo de “dons”, não podemos atribuir infalibilidade a eles. Um dom de pregação, penso ser genuíno, não dá ao pregador moderno a infalibilidade, porque o dom opera em meio ao pecado e preconceito humano. O mesmo é verdade para os dons não-discursivos.
Muitos não-carismáticos ainda têm problemas com processos não-discursivos porque, defendem eles, são naturalmente não verificáveis. Se ninguém pode dizer se se conformam às Escrituras, então tais processos ameaçam perturbar o papel exclusivo que a Bíblia exerce na fundação da Igreja.
Mas nem todos os casos de processos não-discursivos são igualmente um problema. Para os propósitos deste artigo, ignoraremos temporariamente as línguas porque seu conteúdo não é fácil de ser analisado racional e discursivamente. Para outros dons verbais, nós precisamos considerar separadamente o conteúdo de ensino, conteúdo circunstancial e conteúdo de aplicação.
Ensinamento de conteúdo é como um sermão extemporâneo sem um texto. Se o processo é não-discursivo, o orador não está consciente  acerca dos textos sobre os quais sua fala se baseia.  Contudo, ainda que o orador não esteja consciente dos textos, os ouvintes podem se tornar conscientes dos textos que são relevantes. Se o conteúdo é bíblico, tais textos existem. Se o conteúdo não é bíblico, então o orador não deve ser crido. Consequentemente este tipo de conteúdo é verificável. Qualquer um que conhece bem a Bíblia, ou conhece o evangelho, pode verificar se a mensagem corresponde ao que ele sabe. Em minha experiência pessoal, tais testes não são difíceis. Muito do que é chamado “profecia” nos círculos carismáticos carrega consigo  uma fraseologia Bíblica. Não é tão difícil ver esse caráter bíblico geral.
É claro que é um pouco fácil avaliar um sermão textualmente baseado. O texto é explícito e os ouvintes têm imediato acesso a ele. Eles podem comparar o texto com o que o pregador diz. Mas ainda há dificuldades. Um herege esperto pode usar um texto plausível. E um pregador não-herético pode se ver derrapando para fora do texto pela situação ou calor do momento. Discernimento é, no entanto, necessário na avaliação do conteúdo do ensino, sem discussão se o processo envolvido foi discursivo ou não-discursivo.
Perceba também que pessoas diferentes no modo de exercício do discernimento. Para algumas pessoas o discernimento pode ser usualmente discursivo. Em suas mentes eles se lembram de um texto bíblico que se conforma com aquilo que o pregador diz ou o contradiz. Outras pessoas podem discernir de um modo não-discursivo. Eles sentem que aquilo que o pregador está dizendo está correto ou errado. Eles não podem apontar um texto específico, mas eles apenas sabem, talvez pelo fato de terem assimilado e digerido uma grande quantidade de conteúdo bíblico. O conhecimento digerido deles agora trabalha subconscientemente em seus corações para dar-lhes discernimento. O pensamento brota espontaneamente de suas mentes “algo está errado com esta mensagem”.
Desde que o Espírito Santo está trabalhando na vida dos crentes, nós também podemos descrever esses processos como obra do Espírito. Claro que o Espírito Santo opera de formas que não podemos mensurar a profundidade, mas ele também trabalha por meios que podemos descrever, tais como nosso conhecimento das Escrituras, um conhecimento que ele mesmo produz (1ª Co 2:10-16). Pelo lado humano, primariamente há um processo discursivo ou não-discursivo, mas a descrição humana não contradiz o fato de que o Espírito está trabalhando (novamente, penso no exemplo dos livros de Lucas e Apocalipse).
Diferentes tipos de pessoas se ajudam. Ocasionalmente, uma pessoa que discerne de modo discursivo pode não estar imediatamente habilitada para pensar em um relevante texto bíblico para usar em sua avaliação da mensagem. Porém alguém mais sente, pela via não-discursiva, que algo está errado. Então essa pessoa com discernimento discursivo ganha mais tempo e finalmente um texto vem à mente para ajudar a julgar a veracidade da mensagem do orador.
Notas:
[1] Veja O Catecismo de Heidelberg, questão 31; Confissão de Fé de Westminster 8.1 e Breve Catecismo de Westminster, perguntas 23-26
[2] cf. Grudem, Gifts, p. 260.
[3] No lado carismático, veja Wayne Gruden, “o dom de profecia no Antigo Testamento e hoje” (Westchester:crossway, 1988) 277-297. No lado não-carismático, veja H.Ridderbos, “A autoridade das Escrituras do Novo Testamento’ (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1963); R.B. Gaffin, Jr. Pespectivas sobre pentecostes: Estudos no ensino do Novo Testamento acerca dos dons do Espírito Santo (Grand Rapids: Baker, 1979) 89-93
[4]  Mais uma vez devo essa ideia às palestras em sala de aula feitas pelo Clowney
[5]  Note como J. Deere, surprised by the power of the Spirit (Grand Rapids: Zondervan, 1993) 64-71, argui por analogia a pura identificação entre os dons modernos de curar e os dons de cura exercido pelos apóstolos. Até este ponto, sua posição é semelhante a minha.
[6]  O nível dos dons messiânicos é mais difícil de ser analisado porque envolve mistérios da relação entre a verdadeira humanidade de nosso Senhor e sua verdadeira deidade. Com respeito a sua natureza humana, parece que o ministério de Jesus envolveu tanto processos discursivos (Jo 10:35-36; Mt 22:3-32) e processos não-discursivos (17:27; Lc 10:18)
[7] O.P. Robertson, The final Word: A Biblical Response to the case for Tongues and Prophecy today (Carlisle: Banner of Truth, 1993) 84. Este livro foi publicado em português
[8] A distinção entre comunicação direta e indireta de Deus também prova ser infrutífera. O que vale para ser direta? Deus deu as visões de Apocalipse com ou sem um background da composição psíquica de João e um conhecimento prévio da revelação do AT concernente a Daniel e Ezequiel? Deus deu a Pedro a visão de Atos 10 com ou sem Pedro ter fome? Deus deu a Pedro o sermão em At 2:14-36 com ou sem conhecimento prévio de Pedro acerca do AT e das instruções de Jesus constantes em Lc 24:44-49? É impossível responder qualquer uma dessas questões de modo definitivo, no entanto não é necessário respondê-las em ordem para apreciar o resultado das falas e atos de comunicação. O uso de Lucas dos resultados da pesquisa histórica  não desvaloriza o produto. O modo de revelação não é o problema na discussão da autoridade do produto.
[9] O melhor argumento para a continuação dos dons é provavelmente de Grudem em gift, em W.A. Grudem, The gift of Prophecy in I Corinthians (Washington: University Press of America, 1982). Para cessação, veja Gaffin,Perspectives; R.F.White, “Gaffin and Grudem on Eph 2:20: In defense of Gaffin’s Cessacionist Exegesis” WTJ 54(1992) 303-320; “Richard Gaffin and Wayne Grudem on I Co 13:10: A comparison of Cessationist and Noncessationist Argumentation” JETS 35/2 (1992) 173-181. A literatura sobre estas questões é volumosa. Mas Grudem e Gaffin são os porta-vozes mais articulados de ambas posições e podem ser tomados como representantes de um círculo muito mais amplo.
Título original: Modern Spiritual Gifts as Analogous to Apostolic Gifts: Affirming Extraordinary Works of the Spirit Within Cessationist Theology.
Referência:
http://frame-poythress.org/modern-spiritual-gifts-as-analogous-to-apostolic-gifts-affirming-extraordinary-works-of-the-spirit-within-cessationist-theology/
Tradução: Renan Moreira (Versão em português disponibilizada em: http://teologiacarismatica.com.br/).

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Perspectivismo e as sensações


Por John M. Frame

Os sentidos são, por vezes, confiáveis, por vezes pouco confiáveis. O mesmo é verdade para a razão e todas as faculdades humanas. A Escritura reconhece as limitações dos sentidos em 2 Reis 3, mas reconhece o valor positivo do senso-conhecimento em 1 João 1:1-4.

A conclusão, eu acho, é que Deus não nos criou para adquirir conhecimento pelos sentidos sem a razão ou a razão sem o sentido. Ambos estes (e outras) faculdades devem ser utilizadas em conjunto. Não são os sentidos ou a razão que trazem conhecimento, mas a pessoa humana que ganha conhecimento através de seus sentidos e da razão.

Claro que, como Clark e Van Til tanto enfatizou, nós ganhamos o conhecimento infalível apenas por sujeitar nossos sentidos e razão pela Escritura. Mas, é claro, para descobrir o que está na Escritura precisamos de ambos, os nossos sentidos e nossa razão. O que acontece é que chegamos a ler a Escritura pelos nossos sentidos e interpretá-lo por nossa razão. Então, quando nós sabemos o que a Escritura diz, procuramos conformar o nosso senso-conhecimento do conhecimento das Escrituras.


Notas:

*Perspectivismo: a teoria perspectivista demonstra que se pode entender o conhecimento de três maneiras: como conhecimento de uma norma de Deus (perspectiva normativa), como conhecimento de nossa situação (perspectiva situacional) e como conhecimento de nós mesmos (perspectiva existencial). Não se pode adquirir adequadamente nenhum deles sem os outros. Cada um deles inclui os outros. Portanto, cada um deles é uma "perspectiva" do todo, do conhecimento humano completo.

Fonte:

Resposta de email.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Se Deus não existe, então nada é permitido!


Por Fabrício Zamboni.


Dostoiévski disse o contrário. E eu concordo com ele considerando o sentido em que ele afirmava tal asserção. Ora, se Deus não existe, então não existe algo que me obrigue a manter um comportamento, seja ele de amor, de paciência, de empatia, de honestidade, etc. Sem Deus, tais valores e deveres não passam de apenas preferências pessoais sem significado ou meras convenções sociais. Portanto, neste caso, agir com amor tem exatamente o mesmo peso de agir com ódio. Assim como viver do mesmo modo de Hitler tem o mesmo peso de viver como um monge. Não há nenhuma diferença significativa. Sem Deus, perdem-se as regras!
Mas existe também um sentido no qual podemos afirmar que se Deus não existe, então nada é permitido. A racionalidade é este sentido. Para sermos racionais, nós temos o "dever" de raciocinar com base nas leis da lógica, evitando as chamadas falácias filosóficas. Existe uma regra. A primeira premissa deve seguir logicamente até a conclusão.
Mas, o que Deus tem a ver com isso?

Na verdade, ele tem tudo a ver com isso. John M. Frame, em seu ilustre trabalho de apologética pressuposicionalista e epistemologia, demonstra com muita habilidade que o campo da epistemologia, a qual abrange as justificações de crenças é uma subdivisão da ética. Segundo ele “A correlação entre a ética e a epistemologia salienta a nossa ênfase à centralidade das pressuposições. Se estou certo, toda crença pressupõe um juízo de valor ético. Quando uma pessoa afirma conhecer alguma coisa, também está afirmando que está sob certa obrigação ética e que tem certo direito ético. Mas, se as alegações de conhecimento pressupõe juízos de valor dessa maneira, então conhecimento ético ou religiosamente “neutro” é coisa que não existe.".

Frame mostra que toda crença que pretende ser racional está automaticamente comprometida com algum padrão ético, geralmente aparece como pressuposições ocultas. Por exemplo, em um diálogo com alguém que se considera ateu materialista, no momento em que o mesmo está justificando sua crença ele está pressupondo seu direito ético de crer no que crê e também está demonstrando sua obrigação (como resultado de uma implicação “lógica”) ética de crer no que crê.

Semelhante à linha de raciocínio de Frame, o pastor e chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie Davi Charles Gomes afirma: “
Não existe a possibilidade de reflexão epistemológica sem algum tipo de pressuposto. São, primordialmente, de caráter moral e envolvem implicações morais. Em última instância, são de natureza religiosa, dependendo de posicionamentos de fé. Mestres cristãos e não-cristãos mantêm posições de fé. Quando analisa uma equação matemática e pressupõe a possibilidade de encontrar resposta verdadeira para o problema em razão da crença de que Deus criou um mundo assim estruturado, o cristão utiliza um pressuposto de natureza religiosa. Quando um matemático analisa a mesma equação e pressupõe desnecessária a consideração de um Deus para justificar a verdade que deseja encontrar, o pressuposto de que a verdade existe sem necessidade de referência a um Criador, de que a verdade importa, mesmo que o mundo seja mero produto de existência material ao acaso e sem significado transcendente, tal pressuposto também será de natureza religiosa, ainda que apenas em forma de negação.


Nas Escrituras o conhecimento está intimamente ligado com a moral. Por exemplo:

“O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução.
Provérbios 1:7
“E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, E à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade.” 2 Pedro 1:5-7

“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo; E estando prontos para vingar toda a desobediência, quando for cumprida a vossa obediência.”
2 Coríntios 10:4-6

“Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente.Romanos 1:25
A cosmovisão cristã oferece todo apoio ético/moral. O cristão tem o dever de viver conforme a verdade (1 Jo 3). Mas o que oferece uma cosmovisão que tira Deus do cenário? Ela não pode oferecer nada de valor. Sendo assim, é uma crença que se autodestrói. Impossível de ser afirmada. O ateu quer ser lógico, mas a lógica traz consigo um poder ético. E se tem poder ético isso significa que o ateu é aquele que pretende usar algo (no caso, a lógica) contra Deus, mas na verdade esta lógica aponta contra si mesmo.  
Concluímos, portanto, que sem Deus nada é permitido no campo da razão. Cornelius Van Til disse algo que corrobora com a implicação deste título: “O que eu defendo não é que a crença em Deus seja tão razoável quanto qualquer outra crença, ou um pouco ou infinitamente mais provável do que qualquer outra crença; o que eu defendo é que a menos que você creia em Deus, você não pode racionalmente crer em mais nada.”. Se você está atrás da razão, saiba que a fórmula para você encontrá-la é esta: Olhe para a lei de Deus (Gl 2:19). Arrependa-se de seus pecado (Mt 3:2), e confie toda sua vida no Logos (Jo 1:1) que se encarnou.


Referências:

FRAME, John M., A Doutrina do Conhecimento de Deus, ed. Cultura Cristã.

GOMES, Davi Charles, Como Sabemos? O professor e as teorias do conhecimento. Fides Reformata XIII, Nº 2 (2008).

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O Molinismo e a Onisciência de Deus

 
Paul Helm

Conhecimento Médio

Uma sutil e ambiciosa forma de tentar conciliar a posição “isenta de risco” da providência com a ideia de uma ação humana não-determinista foi feita pelo teólogo jesuíta Luís de Molina (1535-1600). Sua opinião foi recentemente revivida por Alvin Plantinga e tem recebido nova e intensa atenção. [1] A idéia do conhecimento médio pode ser brevemente explicada da seguinte forma.

Como nós podemos entender a ideia da onisciência de Deus, a ideia de que Deus conhece toda a verdade? Uma forma útil é prestar atenção aos tipos de verdade que existem para Deus conhecer. Há, primeiramente, verdades necessárias. Por exemplo, as leis da lógica e da aritmética são verdades necessárias. Tais verdades não podem ser falsas. Tais verdades não dependem de Deus querer que elas sejam verdades; ele as conhece como verdadeiras porque ele é onisciente.

Então há uma miríade de verdades que são verdadeiras porque Deus quer que seja assim. Por exemplo, Londres é a capital da Inglaterra, e a batalha de Hastings foi travada em 1066. Essas, e todas as verdades semelhantes, são verdadeiras em virtude do fato de que Deus quis que elas fossem verdadeiras. Se Deus não as tivesse livremente desejado, então elas não seriam verdadeiras. Por essa razão, seu conhecimento sobre elas é chamado de conhecimento livre. Elas aconteceram como resultado da livre decisão de Deus. Deus não conhece essas verdades em um tempo depois de desejá-las, mas ele as conhece ao desejá-las, e não da forma como nós conhecemos muitas de nossas ações ao fazê-las.

Além desses dois tipos de conhecimento, há também o conhecimento que Deus tem das possibilidades que ele não deseja, mas que existem como possibilidades abstratas. Por exemplo, Bognor Regis é a capital da Inglaterra, e a batalha de Hastings foi travada em 1660. Entre essas possibilidades abstratas, há proposições condicionais. Por exemplo, se Bognor Regis fosse a capital da Inglaterra, Londres teria menos de um milhão de habitantes. Outro exemplo: se João tivesse se casado com Joana, eles teriam tido três filhos. O conhecimento que Deus tem de tais possibilidades tem sido chamado de conhecimento médio, um conhecimento a meio caminho entre o conhecimento que Deus tem de verdades necessárias e o seu conhecimento livre.

A Bíblia dá exemplos do conhecimento que Deus tem de tais possibilidades. Duas passagens bíblicas são particularmente famosas nessa discussão: 1Samuel 23.7-13 e Mateus 11.20-24. O que a primeira passagem deixa claro é que Deus sabia que se Davi continuasse na cidade de Queila, Saul o alcançaria, e que se Saul chegasse a Queila os homens da cidade lhe entregariam Davi. O que Jesus afirma na passagem de Mateus é que, se suas poderosas obras tivessem sido realizadas nas impenitentes cidades de Tiro e Sidom, elas teriam se arrependido.

A partir desses dados não pode haver dúvida do fato de que Deus possui o conhecimento de possibilidades que nunca aconteceram. Deus sabia o que teria acontecido se Davi tivesse permanecido em Queila, mas Davi não permaneceu em Queila. Cristo sabia o que teria acontecido a Tiro e Sidom se suas poderosas obras tivessem sido realizadas ali, mas suas obras não foram realizadas ali.

Deus, então, em sua onisciência, conhece proposições que podem não ser falsas, e proposições que podem ser falsas, mas são verdadeiras. Ele também conhece proposições que podem ser verdade, mas que de fato não são verdade, como as que se referem a Davi e Queila e as que se referem a Tiro, Sidom e as obras poderosas de Cristo. É a partir desse vasto leque de possibilidades que Deus deseja o mundo real, o mundo em que eu e você habitamos.

Deve ser afirmado que tudo isso é terreno comum tanto a Molina quanto a seus oponentes. Todos os lados aceitam a ideia do “conhecimento médio de Deus” [conhecimento de possibilidades abstratas]. O que é distintivo na visão de Molina é que ele afirma que entre as proposições condicionais que Deus conhece estão aquelas que indicam o que aconteceria se um indivíduo realizasse uma ação livre (i.e., não-determinista). Ele conhece, por exemplo, miríades de proposições do tipo:

(A) Na circunstância C, se Aline livremente escolhe entre X e Y, ela escolherá Y.

E, Molina afirma, é porque Deus conhece todos os resultados de todas as escolhas possíveis que as pessoas fazem, que ele é capaz de criar – realizar – exatamente aquelas possibilidades que são necessárias a ele para alcançar seus propósitos, e que envolvem escolhas livres e não-determinadas. Portanto, as livres escolhas das criaturas são compatíveis com o perfeito pré-conhecimento de Deus e com sua providência isenta de riscos. Como William Lane Craig, um defensor do conhecimento médio, tem dito:

Já que Deus sabe o que qualquer criatura livre faria em qualquer situação, ele pode, ao criar a situação adequada, fazer com que essas criaturas realizem seus propósitos de forma que elas ajam livremente. [2]

Vamos ver como isso acontece em detalhes tomando um exemplo trivial, mas concreto. Suponhamos que, entre as proposições que Deus conhece, estejam as seguintes proposições condicionais:

(A) Somente se Aline estiver sob a circunstância C e for livre para escolher entre A e B, ela escolherá A.

(B) Somente se Aline estiver sob a circunstância C* e for livre para escolher entre A e B, ela escolherá B.

Suponhamos que Deus queira que Aline escolha B. Nesse caso, Deus claramente produzirá a circunstância C*.

Há uma grande dificuldade, porém, com essa suposição. É que estamos supondo que Aline seja indeterminadamente livre. Como ela é indeterminadamente livre, ela tem o poder, em um determinado conjunto de circunstâncias, de escolher qualquer uma de um número de alternativas abertas diante de si. Como dizem os defensores do conhecimento médio, qual alternativa Aline escolherá depende somente dela, e não de Deus.

Se é assim, então Deus não pode saber que (A) ou (B) é verdade. E como ele não pode saber que (A) é verdade, então ele não pode realizar (A) como um todo. Ele pode realizar Aline, e ele pode realizar a circunstância C. O que ele não pode realizar é Aline livremente escolhendo (A) na circunstância C, pois se Aline vai escolher ou não fazer (A) quando surgir a circunstância C é algo que cabe somente à própria Aline.

Os proponentes do conhecimento médio apresentam o seguinte quadro sedutor da relação de Deus com várias possibilidades condicionais. É como se Deus tivesse diante de si inumeráveis arquivos. Cada um desses arquivos é consistente e completo. Cada um representa um possível segmento do universo. Deus vistoria todos os arquivos e seleciona aqueles que, junto, formam esse universo que, em sua sabedoria e bondade, ele deseja trazer à existência. Entre os arquivos estão aqueles que contêm referência às livres ações humanas em certas circunstâncias. Deus realiza esses arquivos que se referem a circunstâncias que, se os indivíduos forem a elas submetidos e agirem livremente, escolherão de acordo com o fim que Deus quer realizar. Assim, eles dizem, a liberdade humana é preservada, e uma providência isente de riscos também é preservada.

A força do ponto de vista do conhecimento médio é que ele apresenta o universo, e inumeráveis outros universos possíveis, como já possuindo seu curso, embora em forma condicional. Do resumo total de todas essas condições, Deus seleciona (ele realiza) algumas delas para realizar o universo. O universo não pode, por causa da força da liberdade endossada por Molina, ter uma forma sombria, uma forma de tipo puramente condicional, que é a imagem em espelho de como o universo será quando for real, pois como ele será quando ele for real depende, pelo menos em parte, das livres ações de agentes que são reais, uma vez que Deus decidiu criar o universo.

Nós não devemos nos deixar seduzir por esse quadro. Deus não poderia conduzir o curso de eventos dessa forma, já que todos os indivíduos do universo real possuem liberdade não-determinada. As circunstâncias nunca asseguram a realização de uma determinada livre-escolha. Elas apenas providenciam as condições para a livre escolha de uma das várias possibilidades. Portanto, Deus não poderia “fracamente realizar” [3] certos resultados. Ele não poderia usar seu conhecimento sobre o que uma criatura faria sob certas circunstâncias para alcançar o fim desejado.

William Lane Craig, em uma exposição particularmente clara dessa posição, distingue três “momentos” lógicos na realização do mundo. O segundo desses momentos corresponde ao conhecimento médio de Deus. Craig afirma:

No segundo momento, que corresponde ao conhecimento médio de Deus, estão aqueles aspectos do mundo real que são conjuntos de assuntos referentes ao que as criaturas livres farão em qualquer conjunto de circunstâncias. Por exemplo, nesse segundo momento o conjunto de assuntos “se Marcos estivesse sob a circunstância C, então ele livremente realizaria a ação X”, é real. É claro que nem Marcos nem as circunstâncias existem ainda, exceto como ideias na mente de Deus. Contudo, se Marcos for realizado por Deus e colocado sob a circunstância C, então ele livremente realizará a ação X. Dessa forma. O conjunto de assuntos que são expressos pela verdade contrafatual referente às decisões livres tomadas pelos seres humanos já é real nesse segundo momento. Muito embora nesse momento o mundo real em toda a sua plenitude ainda não exista, certos aspectos dele já existem, a saber, os conjuntos de assuntos logicamente necessários que correspondem às verdades contrafatuais referentes à liberdade das criaturas. [4].

Dessa forma, Craig afirma que, antes de Deus decidir criar o mundo, todas as características do mundo que ele estava prestes a criar, incluindo todos os resultados das livres decisões de suas criaturas, já estavam presentes em sua mente. Tudo o que Deus teve que fazer ao criar o mundo foi fazer com que essas realidades específicas (que existiam em sua mente) existissem de fato. Mas é exatamente esse quadro da relação de Deus com as possibilidades que deve ser resistido porque, devido à liberdade humana não-determinada, ele não pode ser verdade. Como William Hasker argumenta, ao criticar esse ponto de vista: “como um agente é genuinamente livre, não há verdades contrafatuais que o agente definidamente faria sob várias circunstâncias possíveis” [5].

A fonte dessa confusão pode estar na falha entre distinguir possibilidades abstratas e realidades concretas. Há, na mente de Deus, conjuntos de possibilidades abstratas como, por exemplo, a ideia de uma certa pessoa possível. Ao criar uma pessoa real, contudo, Deus cria todas as forças físicas e psicológicas dessa pessoa, e  muito mais do que isso. A criação não é como a abertura da porta da jaula de um leão, é a chamada do leão à existência [6].

Nós também podemos ser induzidos ao erro por uma analogia extraída da conclusão oposta. Nós frequentemente dizemos que conhecemos nossos amigos de forma que nós definitivamente sabemos o que eles escolheriam em um dado conjunto de circunstâncias. Se nós sabemos, seguramente Deus pode saber? Mas isso é esquecer não somente que o conhecimento de Deus é infalível, mas também que nossos amigos são genuinamente livres, o que significa que, em qualquer conjunto de circunstâncias, eles são livres para escolher o curso oposto daquele que, com base na experiência passada, eles de fato escolheriam.

Há então possibilidades – sobre o resultado de escolhas livres não-determinadas – que Deus não conhece completamente. Portanto, ele não pode prever todas as possibilidades com respeito à livre escolha de uma pessoa. E assim, como seu conhecimento médio de tais escolhas livres é necessariamente incompleto, ele não pode exercer um controle providencial isento de “risco” sobre sua criação através de seu conhecimento médio.

Nós começamos essa discussão fazendo referência à onisciência de Deus. Mas a onisciência de Deus é limitada por aquilo que é concebível. Se Aline é livre de forma indeterminada, então não é conhecível, nem a Deus, nem a nós nem a qualquer outro observador o que Aline fará quando, em um dado conjunto de circunstâncias, ela for confrontada com uma escolha.

Isso de alguma forma envolve um limite sobre a onisciência de Deus? Nós estamos dizendo que há verdades que Deus não pode conhecer? Diferentes respostas têm sido dadas a essa questão. Swinburne, como nós vimos, crê que Deus livremente nega a si mesmo o conhecimento daquilo que ele poderia conhecer. Outros argumentam que até Aline, como um agente livre, realmente toma decisões livres, e por isso não há nada para saber. E como não há nada para saber, não há nada para Deus saber. Dessa forma, em vez do conhecimento médio ser uma forma de conciliar a onisciência divina (e a pré-ordenação) com a liberdade humana, nós devemos concluir que a liberdade humana limita o escopo da onisciência divina.

Tais conjuntos de assuntos não impedem que Deus faça uma suposição bem fundamentada, uma posição habilidosa, sobre o que Aline provavelmente fará. Talvez, sob a circunstância C, muito provavelmente Aline faça A. Mas o conhecimento de tais probabilidades corrói a infalibilidade que é classicamente atribuída a Deus, e que os proponentes do conhecimento médio certamente desejam que ele continue possuindo.
[7]

Notas:

[1] Veja Alvin Plantinga, The Nature of Necessity (Oxford: Clarendon Press, 1974), ch. IX.

[2] William Lane Craig, The Only Wise God (Grand Rapids, Michigan: Baker, 1987), p.135.

[3] A. Plantinga, op. cit., p. 173.

[4] Willian Lane Craig, op. cit., p. 143

[5] William Hasker, God, Time and Knowledge, p. 52.

[6] Sobre isso, e muito mais críticas detalhadas do conhecimento médio molinista, veja Richard M. Gale On the Nature and Existence of God (Cambridge: Cambridge University Press, 1991), ch. 4.

[7] Para discussão posterior, veja Luís de Molina, On Divine Foreknowledge  (Parte  IV da Concórdia), trad. Alfred J. Freddoso (Ithaca: Cornell University Press, 1988). O conhecimento médio também é defendido por Thomas P. Flint “Two Concepts of Providence”, in Divine and Human Action, org. T. V. Morris (Ithaca: Cornell University Press, 1988). Ele é criticado por William Hasker, God, Time and Knowledge, e por Robert Merrihew Adams, “Middle Knowledge and the Problem of Evil”. Há outras soluções propostas para o problema do conhecimento de Deus e a liberdade humana não-determinada, mas elas tendem a focalizar sobre o conhecimento de Deus como distinto de sua vontade, e assim são menos relevantes para a providência divina. Veja, por exemplo, Alvin Plantinga “On Ockham’s Way Out”, in The Problem of Evil, org. M. M. Adams and R. M. Adams (Oxford: Oxford University Press, 1990).

* Colocações minhas em parênteses.


Referência:

HELM, Paul, A Providência de Deus (Série Teologia Cristã), ed. Cultura Cristã, cap. 2, ps. 48-53.